
"SOBRE OS QUASE VINTE UM..."
"Quando eu era criança, falavra como criança, pensava como criança, fazia coisas que eram próprias de criança. Hoje sou um homem e não deixei ainda o que era próprio de criança. Não porque não pudesse, menos ainda porque queresse. Às vezes é o que me sustenta nas noites mais sombrias de meu dia-a-dia. Entro em crises. Esperneio. Grito: não quero ser assim! Não quero ser apenas mais um adulto que trabalha e se cansa, sem tempo de viver a imagem de um nascente junto ao mar ou ao menos dormir até um pouco mais tarde sob o cobertor quente por chover frio e forte lá fora! Mas não se pode segurar com as mãos o tempo - ele é teimoso, escorrega por entre os dedos como uma fina areia levada pelo vento a um lugar mais distante que as pernas podem alcançar."
"Quando eu era criança, eu sonhava mais. Hoje ainda sonho. Com um colorido forçado e sem graça de uma televisão velha que nem colocando palha de aço nas antenas (ou no que sobrou das antenas) dá jeito. Entretanto sonho. Talvez como um prêmio de consolação que eu me permito possuir apenas para que eu não tente um suicídio onírico na alma."
"Um cachorro sem raça corre num gramado mal cuidado perseguind
o uma borboleta que voa serelepe, rindo da inocência do animal que pensa poder alcançá-la. Ao fundo, sob a sombra da laranjeira, um pintor pinta a cena, mudo de expressões, numa serenidade típica de artista. Nem os moleques, mais adiante, jogando bola no campo lamacento pela chuva do dia anterior fazem com ele mova uma pincelada desnecessária." "Quando eu era criança, eu era uma criança. Hoje, acordo do sonho e me vejo, adulto, diante de um espelho com o tempo correndo mais rápido do que eu posso acompanhá-lo e uma barba para ser feita..."
ED
ps: sim, eu era assim e, em parte, ainda sou... Mudei algumas coisas, mas tenho o amior respeito pelo Edmar melodramático de quase 21 anos que um dia eu fui...
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