domingo, 19 de dezembro de 2010

Carta a Milton Dias

Caro seu Milton,

Escrevo-lhe novamente para lhe falar sobre minha viagem a nossa querida terra natal, Massapê. Não havia parado para imaginar como seria difícil voltar depois de tantos anos - ainda mais agora, que minha Queridinha se foi... O primeiro choque foi logo com a entrada: a cidade crescera muito mais que o esperado: o Estado chegou lá sob a forma de uma delegacia novíssima e localizada muito antes de onde, para mim, a cidade começava: o Santuário de Nossa Senhora de Fátima. Este, por sua vez está entregue ao esquecimento. A imagem esculpida na própria árvore parece só ser lembrada na hora de se pedir algo...

Acho que o senhor não chegou a conhecer o Santuário, mas faz parte de minhas lembranças mais antigas. Data de 1988 e eu lembro quando era apenas a imagem na árvore.

De novo o progresso tem deixado marcas na cidade que, para quem retorna, mais parecem máculas às nossas tenras lembranças: as lojas,os hotéis, as gentes... tudo novo demais, diferente demais, variado demais....

Ao menos a igreja estava lá. Não a de Santa Úrsula, mas a de minhas lembranças (perdoe-me). A pracinha dos patinhos continua com os patinhos, mas não pude ir ver se ainda havia os cabras que ficavam lá, à noite, vendo TV. Não pude, estava fragilizado demais com as coisas que aconteceram.

A casa...

Ver a casa de minha infância transformada em um local de curso (uma ONG ou coisa assim) foi uma facada no peito. Mal tive coragem de entrar... não era mais minha casa... não era mais o lugar onde eu escutava minha Querida vó brigando comigo por correr dentro de casa, não era mais o lugar onde eu me escondia de baixo da mesa com minha irmã mais velha por medo dos morcegos, não era mais o lugar onde eu sempre via minha vó... não era mais a "mansão do Coronel Juca Aguiar"... era apenas mais um "centro cultural".

Ah, seu Milton... mal sabia eu que ainda me esperava...

Meu pai, como um verdadeiro Arruda que é, chegou em Massapê e, comigo e minha irmã caçula, foi fazer a perigrinação pelas casas dos parentes - não todos, pois são inúmeros, mas aqueles que deu tempo. Ver todas aquelas pessoas atingidas pelo tempo me fez lembrar que um dia, quando eu tiver meus filhos, eles poderão não estar mais aqui... serão apenas fotos ou histórias - quando muito. Da mesma forma que meu pai faz, quando fala do "Velho Messias", eu terei que fazer...

Dói, seu Milton, perceber que nossos filhos não conhecerão parte de sua história: onde seus pais viveram, onde foram crianças felizes... Queria muito que minha Querida tivesse vivido para conhecê-los... agora ela ficará na lembrança da única neta, minha sobrinha, que terá a missão de salvaguardar as memórias dela... Meu Deus... que pessoa maravilhosa meus filhos deixarão de conhecer... quantas pessoas...

Agora, devo lhe confessar, minha maior dor foi causada pela visão da única irmã viva de minha vó... cega, mal cuidada, abandonada pelos sobrinhos... Ah, seu Milton, apenas pele e osso, pele e osso mesmo... Não quero chorar, mas é difícil... só me vem à lembrança as palavras da vovó "Não abandonem minhas irmãs, por favor"... como ela ficaria mortificada com tudo isso... Sabe, me senti um inútil sem saber o que fazer. Minha mãe tentou trazê-la, mas os sobrinhos nunca deixaram e ela acaba ficando de mãos atadas... Sei que posso pedir a Deus por ela, como tanto pedi por minha Queridinha, mas seria o suficiente?

Agora estou em Fortaleza, meio que contanto os dias para voltar para minha casa no Crato. Mas o vazio deixado por tudo isso demorará a ser preenchido. Fica apenas o conforto que meu padrinho de Crisma, Gilson, me deu: "Com o tempo a tristeza passa e o que fica serão as lembranças mais doces que você poderia desejar ter".

Despeço-me, seu Milton, pedindo desculpas por minha fraqueza em me conformar com a passagem do tempo e as consequências que ela traz.

Abraços,

Higo (também conhecido como Edmar)

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